segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Pensamentos soltos

- Eu disse isso? - Pergunta o homem, com voz firme.
- Disse sim... - Responde a criança cabisbaixa, quase sem voz, encarando o chão.
- Você é um mentiroso! - Exaltado, os olhos bem abertos, ele retruca.
- Não tô mentindo, você disse...
- EU NÃO DISSE ISSO, SEU MENTIROSO! - Descontrolado, o homem grita brutamente, com o dedo em riste e a expressão de raiva que apavoraria qualquer um (principalmente uma criança).

Silêncio. A mulher leva de volta ao quarto a criança, que já não consegue segurar os soluços consecutivos, e nem enxugar os olhos de onde jorram lágrimas atrevidas.

- Eu acredito em você. Eu te amo, filho. - A mulher fala baixinho, quase sussurrando, as palavras de mãe invadindo o desespero da criança e acalentando seu corpo encolhido, confortando um coração machucado.

E a criança cresceu. Cresceu ouvindo que pai é que cria, mas nunca concordou. Ela sempre foi grata pela educação que recebeu daquele homem, pela paciência, pela ajuda e pelo carinho, que de certa forma não faltou. O grande problema é que a criança crescida ainda tem aquele filme na cabeça, aquelas imagens que vem junto com a raiva, e que a fazem lembrar que pai, de sangue ou não, não chama filho de mentiroso sem razão.

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